Presente, Passado e Futuro


foto: Rafael Kent



Não sei se vocês repararam, eu até já falei isso por aqui, mas temos uma série de bandas pra lá de interessantes no cenário atual, com garotas na linha de frente, seja cantando, seja tocando, seja fazendo as duas coisas! Plutão Já Foi Planeta, Far From Alaska, Supercombo, Der Baum, Deb And The Mentals, e por aí vai! Sempre tivemos moças em evidência no meio musical, mas a fase atual é sensacional!


Essa aglutinação me fez lembrar de uma outra grande época. Cerca de uns 15 atrás também tivemos uma grande leva de banda com garotas, cada uma em um canto do Brasil. Ludov e Luxúria, de São Paulo, Wonkavision, de Porto Alegre, Penélope e Pitty, de Salvador, etc, etc.


Lá no primeiro semestre desse ano vi que tinha outra banda importante que fazia parte dessa turma que estava de volta com força total depois de um tempinho andando mais devagar, o Leela! Naquela época, eles atravessaram o underground, foram premiados pela MTV, receberam indicação ao Grammy Latino e conquistaram fãs por onde quer que aparecessem.


Formada primordialmente pelo casal Bianca Jhordão e Rodrigo Brandão, hoje a banda Carioca residente em São Paulo conta ainda com Eduardo Barretto no baixo e Rafael Garga na bateria. Estão mantendo uma agenda de shows ativa, aparecem no seu canal do YouTube semanalmente, e ainda preparam disco novo pra 2018.


E foi vendo essa galera de novo trabalhando, que chamei a vocalista Bianca Jhordão para um papo sobre toda a história da banda, e sobre o que ainda virá por aí! Valeu demais, Bianca!


Sustenido: Como foi lidar com aquele boom inicial da banda? Vocês tinham uma grande exposição, capa de revista, abriram shows de bandas gringas, indicação pro Grammy Latino, prêmio na MTV. Como foi essa fase?


Bianca: Foi um período muito bacana e bem intenso! A exposição na mídia mainstream amplificou o trabalho que vínhamos fazendo com shows no circuito independente. Tocar em rádios e participar de programas de televisão com grande audiência nos conectou com um novo público que passou a nos acompanhar em shows, pedindo as músicas nas rádios e o clipe na MTV. Só lamentamos que, nessa época - 2005/2006 - não existiam as redes sociais como hoje em dia e não conseguimos aproveitar a onda para criar uma base sólida de fãs nessas redes.


Sustenido: Vocês vieram de uma época em que a indústria fonográfica estava em transformação, com as gravadoras perdendo a força, mas ainda funcionando como um trampolim para os artistas. Vocês assinaram o seu contrato e lançaram dois álbuns, mas depois partiram para a independência. Vocês fazem tudo sozinhos hoje, ou tem alguma empresa auxiliando?


Bianca: Atualmente, estamos DIY (do it yourself) total e muito felizes com a retomada da banda de uma forma mais regular. Fazemos tudo sozinhos mas temos a intenção em buscar parcerias para o lançamento do próximo álbum em 2018.


Sustenido: Nós também estamos muito felizes com o retorno de vocês! O Leela é uma banda do Rio, mas que acabou se mudando para São Paulo. Como aconteceu essa mudança? Foi fácil a adaptação?


Bianca: Nós mudamos para São Paulo por sugestão do Rick Bonadio, que era nosso empresário na época. Ele conseguiu que a gravadora nos ajudasse nos primeiros 6 meses. Nesse meio tempo fui convidada para apresentar um programa na televisão e me descobri também como apresentadora. Eu adoro morar em São Paulo e a adaptação até foi tranquila, considerando que, pouco tempo depois da mudança, tivemos que mudar de empresário, deixar a gravadora e ainda trocar de baterista.


foto: Elza Cohen


Sustenido: Com a chegada do Theo (filho da Bianca com o Rodrigo), como ficou o lado profissional? O ritmo baixou um pouco, não?


Bianca: Em 2012, quando o Theo nasceu, lançamos o "Música Todo Dia", terceiro álbum do Leela e gravamos o videoclipe de "On The Road" que chegou a rodar bem na antiga MTV, entrando na parada de clipes. Fizemos alguns shows e, em seguida, diminuímos o ritmo de trabalho com a banda. Nesse tempo montamos o nosso estúdio, Music Bunker, que era um sonho que Rodrigo e eu tínhamos há muito tempo. Um lugar para criar, ensaiar e tocar sempre que a gente pudesse.


Eu também apresentava um programa na TV onde fazia entrevistas jogando videogame e segui no ritmo intenso de gravações do programa até o ano seguinte. Mas, com um bebê em casa, resolvi aproveitar bem esse novo mundo da maternidade, amamentação e toda atmosfera linda que se abria para nós. Com a redução das atividades com o Leela, comecei a me apresentar - voz e violão - no projeto Literatura de Berço, onde levávamos poesia e música para as novas mamães além de um programa semanal numa webrádio sobre esse assunto.


Em uma das letras novas, tem uma frase que representa bem esse momento: "O tempo fica diferente vendo o filho crescer".


Sustenido: Você mencionou a antiga MTV. O final daquele formato que ela tinha e que tanto deu exposição ao Leela, prejudicou toda uma geração de bandas que surgiram e se desenvolveram com a emissora. Como foi pra vocês perder essa grande vitrine?


Bianca: Ficamos bem tristes, pois a antiga MTV era uma plataforma consistente de lançamento de novos artistas e a gente se sentia em casa ali, se identificava muito com o pessoal que trabalhava lá, com o público e com a programação. Foi a emissora onde mais aparecemos na nossa carreira. Nos últimos anos, com o espaço que eles abriam para shows de humor e reality shows, sentimos que os videoclipes estavam com os seus dias contados lá e não demorou muito pro fim acontecer. Eu assisti o primeiro dia da MTV Brasil nos anos 90 e estive na festa de encerramento no prédio onde funcionava o estúdio. Uma pena realmente que isso tenha ocorrido. Agora temos o YouTube e as redes sociais para mostrar nossos trabalhos e estamos buscando nosso caminho por lá também.


Sustenido: Falando em YouTube, Vocês usam muito bem essa plataforma com suas transmissões ao vivo. Aproveitam pra tocar suas músicas, fazem versões de clássicos de outras bandas, recebem convidados especiais. De onde veio a ideia? Sua experiência na TV te ajuda?


Bianca: No início de 2017, voltamos a ensaiar semanalmente no Music Bunker para tocar as músicas inéditas e preparar um novo show e álbum. Foi quando resolvemos produzir transmissões ao vivo de alguns ensaios no Facebook. A resposta nessa primeira transmissão foi muito boa. Tocamos um set de meia hora e vieram vários comentários positivos, de amigos e fãs saudosos que não encontrávamos há muito tempo.


Ficamos animados e nos desafiamos a fazer lives semanais. Com o tempo fomos nos aperfeiçoando, melhorando o cenário, a iluminação e a transmissão, que passou a ser simultânea no Facebook e Youtube, e por um período também fizemos no Instagram. Desenvolvemos temas para celebrar a obra de artistas que nos influenciaram e, finalmente, conseguimos receber os amigos músicos para fazer som com a gente no estúdio. Sem dúvida minha experiência na TV ajuda, até porque fazer ao vivo não é fácil não, rsrs. Quando a câmera está ligada, o coração dispara!


Sustenido: Ao longo da discografia da banda, a gente percebe que o som de vocês vai sofrendo mutações de um disco para o outro, e agora vocês estão preparando um disco novo, não é? O que podemos esperar de novo dessa vez? Em um show recente em que eu estive, você mencionou que teriam músicas em inglês...


Bianca: Sim, queremos ter o disco novo lançado no primeiro semestre em 2018!! A idéia é que metade das músicas do álbum sejam em inglês e isso é uma novidade no Leela. Se não for metade, certamente teremos algumas. Também exploramos ainda mais as bases e programações eletrônicas, sintetizadores, batidas bem dançantes junto a climas psicodélicos. Estamos bem animados com o novo repertório.



Sustenido: Como é a relação do Leela com as bandas mais novas? Existe uma troca de experiências, convites pra dividir palcos, etc?


Bianca: Recentemente convidamos o Der Baum, banda do ABC de São Paulo, para o #LeelaLive e para um show com as 2 bandas e foi demais! Tem várias bandas/artistas novos com trabalhos tão interessantes. Queremos conhecer mais, convidar para fazer o #LeelaLive , trocarmos mais experiências e fazermos shows juntos.


Sustenido: E sobre seu projeto com o Fê Lemos, o Hotel Básico? Como ele surgiu?


Bianca: O Hotel Básico é o projeto de música eletrônica do Fê que tem, como característica, vocais femininos. Em 2007, compusemos, de brincadeira, "O Funk do Bafômetro" e, anos depois, o Fê contou que iria entrar no segundo álbum do Hotel Básico. Depois do lançamento do álbum, o Fê me convidou para cantar nos shows de divulgação e, desde o ano passado, me apresento ao lado dele, que sai das baquetas para tocar teclados, sintetizador e cantar. Em janeiro de 2018 faremos nossa estréia num grande festival de música eletrônica, o Universo Paralello, dia 3 de janeiro, na Bahia.


Sustenido: Vocês já estão por aí faz muito tempo. Mudou algo na forma como as pessoas veem uma mulher a frente de uma banda de rock? Você acha que a cena continua muito machista?


Bianca: Hoje em dia existe uma cena bem mais ampla, organizada e profissional de mulheres que agitam na música, seja tocando, produzindo, na parte técnica trabalhando como roadies ou engenheiras de áudio, coisa que não existia quando começamos. Quando comecei a tocar, éramos poucas mulheres nessa correria. Passei por situações machistas em alguns momentos. Infelizmente, ainda existem machistas e misóginos no meio. Ao mesmo tempo, cada vez mais, vejo homens bacanas que curtem e respeitam bandas com mulheres e mulheres trabalhando na estrada com música.

#leela #biancajhordao

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Rock e afins meio tom acima! Histórias, dicas, sugestões, informação sobre todas as vertentes desse ritmo que nos une.

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